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Música

Corpo Coral transforma repertório feminino em álbum audiovisual de Monica Casagrande

Anna Laitinenmaio 21, 20264 Mins Read
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(Foto por Stephanie Veronezzi)

Projeto independente reúne interpretações de compositoras brasileiras e internacionais em um percurso simbólico que articula voz, corpo e imagem como gesto criativo

Escute aqui: https://lnk.dmsmusic.co/monicacasagrande_corpocoral

Corpo Coral é o novo álbum audiovisual da cantora Monica Casagrande. O projeto reúne interpretações de canções escritas e consagradas por mulheres brasileiras e internacionais, organizadas como um percurso simbólico que atravessa diferentes estados emocionais. Concebido como obra central na trajetória da artista, o disco nasce da vontade de colocar a voz no centro do processo criativo, tratando a interpretação como gesto e o corpo como parte da própria narrativa do trabalho.

O título Corpo Coral sintetiza a ideia do corpo como território atravessado por múltiplas vozes femininas. Cada faixa corresponde a um ciclo dentro de um ritual de transformação pensado de forma não linear, em que desejo, resistência, entrega e renascimento se encadeiam como estados de passagem. A noção de coral aparece como reconhecimento da força coletiva dessas vozes reunidas em um único corpo intérprete.

O trabalho foi concebido a partir de um processo de escuta aprofundada das canções escolhidas, considerando não apenas afinidade musical, mas também a potência simbólica de cada obra dentro do arco narrativo do disco. As gravações priorizaram a presença da voz, a respiração e o silêncio, criando arranjos que funcionam mais como chão para a interpretação do que como protagonismo instrumental. Parte do projeto foi registrada no Estúdio Kumbuka, onde nove faixas foram gravadas em cinco dias, e no estúdio Bolha Films, onde foram produzidos cinco videoclipes em três dias.

Musicalmente, Corpo Coral transita por referências de jazz, MPB, soul, pop e blues, com o smooth jazz funcionando como eixo de unidade sonora. O disco evita uma progressão linear e aposta em uma construção em espiral, que se inicia em um estado de resistência e se encerra em uma inocência transformada. A linguagem musical mantém diálogo constante com a tradição do jazz de fusão e com a música brasileira, sem se fixar em um gênero específico.

O álbum conta com a participação da percussionista Lan Lahn e da guitarrista Navalha Carrera. A escolha das colaborações partiu do desejo de ampliar a presença feminina no projeto, reunindo musicistas de diferentes trajetórias para compor um trabalho coletivo.

O repertório percorre diferentes momentos desse ritual simbólico: a emancipação aparece em “Don’t Let Me Be Misunderstood” (Nina Simone); o desejo em movimento atravessa “Fullgás” (Marina Lima); a liberdade afirmada ganha corpo em “Agora Só Falta Você” (Rita Lee); o autorreconhecimento se revela em “Suddenly I See” (KT Tunstall); a ruptura e a autonomia atravessam “You Don’t Own Me” (Lesley Gore); a entrega emocional se aprofunda em “Amor, Meu Grande Amor” (Angela Ro Ro); a cura surge em “Put Your Records On” (Corinne Bailey Rae); a maturidade se expressa em “At Last” (Etta James); e o renascimento se anuncia em “Baby” (Gal Costa). As interpretações não operam como tributo nostálgico, mas como reinscrição dessas canções em um novo contexto corporal e vocal.

Corpo Coral foi concebido desde o início como um projeto audiovisual. O lançamento do disco é acompanhado por uma série de videoclipes, além de conteúdos narrativos e de bastidores. Até o momento, já foram lançados os clipes de “Fullgás”, “Amor, Meu Grande Amor” e “Baby”. Os vídeos têm direção criativa de Di Tateishi e Nora Jasmin e funcionam como extensões do conceito do álbum, em que som e imagem compartilham a mesma lógica ritual, evitando a reprodução literal das artistas homenageadas e trabalhando com arquétipos, atmosferas e estados corporais.

A capa de Corpo Coral traduz visualmente o conceito do álbum por meio de uma imagem fragmentada e em camadas. A repetição do corpo da artista sugere estados internos e diferentes “peles”, dialogando com arquétipos ligados à ciclicidade, à serpente e aos ritos de passagem. Assim como o disco, a imagem propõe movimento e desdobramento, sem oferecer uma leitura única ou conclusiva.

Ao interpretar canções que atravessam a memória afetiva de diferentes gerações, Monica Casagrande utiliza o próprio corpo como canal para um coro de vozes que moldaram sua formação artística e pessoal. O projeto reafirma a interpretação como prática criativa e posiciona o disco como um espaço de escuta, reconhecimento e reinvenção contínua.

Monica Casagrande é cantora e intérprete com trajetória marcada por projetos autorais densos e investigativos. Em Corpo Coral, após quatro trabalhos centrados em composições próprias, a artista desloca o foco para a interpretação de repertório alheio, assumindo esse gesto como criação de sentido. O álbum marca uma nova fase em sua carreira, sem se configurar como intervalo ou projeto paralelo.

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