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Início » Construção modular avança no Brasil em meio ao apagão de mão de obra e pressão por produtividade
Negócios

Construção modular avança no Brasil em meio ao apagão de mão de obra e pressão por produtividade

Anna Laitinenjunho 19, 20264 Mins Read
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Escassez de profissionais qualificados, aumento dos custos e atrasos em obras aceleram a industrialização da construção civil. Empresas do setor já enxergam os sistemas industrializados como resposta prática para reduzir impactos operacionais e aumentar a previsibilidade.

A construção civil brasileira atravessa uma transformação silenciosa, mas profunda. Enquanto o setor mantém crescimento e demanda aquecida em segmentos corporativos, hoteleiros, hospitalares e de infraestrutura, empresas enfrentam um problema cada vez mais crítico nos canteiros: a falta de mão de obra qualificada.

O chamado “apagão de mão de obra” já impacta cronogramas, aumenta custos e pressiona a produtividade do setor.

Dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) mostram que mais de 80% das construtoras brasileiras relatam dificuldade para contratar profissionais qualificados para funções operacionais. Entre os cargos mais escassos estão pedreiros, carpinteiros, armadores, instaladores e mestres de obras.

O problema não é isolado. A construção civil brasileira enfrenta um cenário marcado pelo envelhecimento da mão de obra, baixa renovação geracional e redução do contingente de jovens disponíveis para o mercado de trabalho, reflexo direto das mudanças demográficas no país. Paralelamente, cresce a migração de trabalhadores para atividades ligadas à logística, aplicativos e serviços autônomos, enquanto a pressão por produtividade, velocidade de entrega e previsibilidade financeira se intensificou significativamente nos últimos anos.

Segundo levantamento da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE), a construção civil segue entre os setores com maiores desafios de produtividade da economia brasileira. No cenário internacional, estudos da McKinsey apontam que a produtividade global da construção cresceu menos de 1% ao ano nas últimas décadas, muito abaixo de setores industriais que avançaram com automação e padronização produtiva.

É nesse contexto que a industrialização da construção começa a ganhar espaço no Brasil. Sistemas modulares e modelos off-site vêm sendo adotados como alternativa para reduzir a dependência operacional, diminuir desperdícios e melhorar o controle técnico das obras.

Na prática, parte significativa da construção deixa o canteiro e passa a ser produzida em ambiente industrial, em linhas de montagem com maior controle de processos, qualidade e cronograma. Dependendo do projeto, o prazo de execução pode cair até quatro vezes em relação aos modelos tradicionais.

Para Celso Zaffarani, fundador da Zaffarani Design Build, a industrialização deixou de ser apenas uma inovação técnica e passou a representar uma necessidade operacional do setor.

“A construção civil brasileira ainda opera com uma dependência muito grande de processos artesanais. Quando você soma escassez de mão de obra, aumento de custos e pressão por prazo, a industrialização passa a ser uma resposta estratégica para manter eficiência e previsibilidade”, afirma.

Segundo ele, segmentos como hotelaria, saúde e projetos corporativos devem acelerar esse movimento justamente pela necessidade de reduzir impactos operacionais durante obras e reformas.

“Em projetos corporativos e hoteleiros, o tempo parado gera prejuízo. Quanto maior o controle industrial sobre determinadas etapas, maior a previsibilidade de entrega e menor o impacto sobre a operação do cliente”, explica.

O avanço acompanha uma tendência global. Relatório da Dodge Construction Network projeta crescimento consistente do mercado internacional de construção modular nos próximos anos, impulsionado por fatores como produtividade, sustentabilidade e redução de desperdício. Nos Estados Unidos e em países europeus, sistemas industrializados já são utilizados em hotéis, hospitais, residências estudantis, habitação multifamiliar e estruturas corporativas.

Apesar disso, o Brasil ainda enfrenta obstáculos relevantes para ampliar o modelo em larga escala. Um dos principais desafios está na logística. O transporte de módulos industriais exige infraestrutura rodoviária adequada, planejamento operacional e adaptações técnicas que ainda limitam a expansão do sistema em algumas regiões.

Outro ponto está relacionado ao próprio ambiente regulatório e financeiro da construção civil. Grande parte dos modelos de financiamento, tributação e normativas técnicas ainda foi estruturada com base na lógica tradicional dos canteiros de obra.

Para Celso Zaffarani, o futuro do setor deve caminhar para um modelo híbrido.

“A tendência não é o desaparecimento da construção convencional, mas uma integração maior entre industrialização e execução em campo. Algumas etapas vão migrar para ambientes industriais enquanto outras continuarão sendo feitas no canteiro. O setor está entrando em uma nova fase de maturidade produtiva”, diz.

Além da produtividade, empresas também observam ganhos importantes em sustentabilidade. Estudos internacionais apontam que sistemas industrializados podem reduzir desperdício de materiais, retrabalho e consumo de água, temas que vêm ganhando peso crescente nas exigências corporativas e institucionais.

Com pressão crescente por eficiência, previsibilidade e controle financeiro, a industrialização da construção começa a deixar de ser tendência futura para se consolidar como resposta concreta aos limites operacionais do modelo tradicional.

construção
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