(Mouse on Mars (na esquerda: Jan St. Werner; na direita: Andi Toma) e Lee “Scratch” Perry – crédito: Constantin Carstens)
Álbum póstumo em colaboração com duo eletrônico é o último projeto do ícone jamaicano
Ouça e assista ao clipe aqui.
No último mês, foi anunciado Spatial, No Problem, um álbum do falecido ícone jamaicano Lee “Scratch” Perry em colaboração com os pioneiros alemães da música eletrônica Mouse on Mars. Com lançamento marcado para 5 de junho, Spatial, No Problem é o último projeto oficial de álbum de Scratch.
Após o falecimento de Lee “Scratch” Perry, uma enxurrada de gravações apareceu alegando ser o projeto “último” ou “final” do ícone jamaicano. No entanto, seu último projeto oficial de álbum o levou a Berlim, na Alemanha, onde ele desembarcou na porta dos pioneiros da eletrônica Mouse on Mars (também conhecidos como Jan St. Werner e Andi Toma). O álbum resultante, Spatial, No Problem., será lançado em 5 de junho.
Hoje, foi apresentado o segundo single do disco, intitulado “To The Rescue”, que sucede o universo sonoro de inspiração motorik do primeiro single, “Rockcurry”. A instrumentação de “To The Rescue” possui uma qualidade despreocupada e meditativa, ao mesmo tempo em que mantém uma precisão que sustenta tudo. Perry não queria fazer um álbum de reggae enquanto estava em Berlim com Mouse on Mars, porém, com suas letras livres, “To The Rescue” remete ao seu trabalho com Bob Marley & The Wailers em “Sun Is Shining”, do Soul Revolution Part II.
O vídeo de “To The Rescue” é dirigido pelo Studio Sparks, que reuniu uma série de imagens de estúdio com colagens em 3D que capturam o espírito do período de Perry com Mouse on Mars em Berlim em toda a sua energia.
A primeira questão era por que Lee “Scratch” Perry estava indo para Berlim. As razões eram vagas na época e continuam sendo. Rumores de uma conexão com uma gravadora. Uma história envolvendo um amigo que havia trabalhado com Mouse on Mars em Tromatic Reflexxions, sua colaboração de 2007 com o falecido ícone pós-punk Mark E. Smith sob o nome Von Südenfed.
Mouse on Mars se preparou o máximo possível para a chegada de alguém que havia atingido status mítico ainda em vida. Ainda assim, a chegada de Lee “Scratch” Perry ao Paraverse Studio da dupla em Berlim, em dezembro de 2019, foi uma surpresa. Datas mudavam constantemente. Agendas eram alteradas. Havia também sua famosa imprevisibilidade. Se ele realmente viesse, qual de suas personas apareceria? The Upsetter, Pipecock Jackxon, The Super Ape? Talvez Inspector Gadget, ou The Firmament Computer.
Por trás dessas máscaras estava Rainford Hugh Perry, frequentemente descrito como uma das figuras mais importantes da história da música jamaicana. Produtor, engenheiro, dono de selo, performer — seu impacto atravessa o ska, o rocksteady, o roots reggae, os sound systems e o dub, além de artistas como Bob Marley, Junior Murvin, Max Romeo e The Congos, entre muitos outros. Gerações passaram por ele e por sua escuta. Sua influência se estende ao punk, funk, música eletrônica, hip hop e trip hop, além de sua própria carreira inclassificável como explorador de palavras, sons e conceitos esotéricos. Um homem assim só poderia ser imaginado através da ficção científica, do surrealismo, da magia ancestral e do que alguns ainda chamam de Afrofuturismo.
Em algum momento, esse inovador decidiu colaborar com Mouse on Mars. Mas ele realmente sabia quem eles eram? Essa foi a segunda questão — também sem resposta. Mouse on Mars é reconhecido como um dos projetos de música eletrônica mais definidores e versáteis da Alemanha. Em mais de três décadas, lançaram mais de dez álbuns, incluindo Niun Niggung (1999) e Idiology (2001) — este último eleito Álbum do Ano pela revista The Wire — além de EPs, trilhas imaginárias para filmes como Fata Morgana de Werner Herzog e muitos outros projetos idiossincráticos. Também são conhecidos por colaborações com Stereolab, Bon Iver, Tyondai Braxton, The National, Matthew Herbert, Modeselektor e Tortoise — mas será que Lee conhecia sua música? Tudo o que o grupo sabia era que haviam sido escolhidos.
Perry não perdeu tempo. Abriu sua mala de viagem e tirou objetos diversos: ícones, imagens, adesivos, talismãs. Com canetas e marcadores, escreveu slogans e ideias nas paredes e superfícies. Também transformou o estúdio com som: cantando, entoando e murmurando em ritmo, comunicando-se por sussurros, tosses e olhares cúmplices. Desconstruindo palavras de forma irreverente e afetuosa. Os músicos o seguiram, gravando o tempo todo. Jan St. Werner descreve o processo intuitivo: “Quase não falávamos sobre o que estávamos fazendo. Nos encontramos e começamos. Ele ria muito e nós ríamos junto. Também cozinhamos e comemos sopa de peixe e mamão.”
Como exploradores devotos do som — sendo Jan St. Werner professor de Pesquisa em Prática Sonora na Universidade Folkwang — talvez essa colaboração fosse inevitável, um encontro cósmico.
Certa vez, Mouse on Mars perguntou a Lee “Scratch” Perry sobre o espaço, enquanto o aroma de ensopado jamaicano de peixe preenchia o ambiente. Mais especificamente, sobre sua familiaridade com áudio espacial e difusão multicanal. Sua resposta não só deu título ao álbum, mas também definiu seu método de criação: “Spatial”, disse ele sorrindo, “No problem.” E então, assim como chegou, partiu. De volta à Suíça, onde havia rumores de um segundo Black Ark Studio, e depois para se juntar aos seus — e nossos — ancestrais sonoros. Spatial, No Problem. conta a história do que Perry deixou em Berlim nesse encontro com Mouse on Mars: um relato de espaços que se misturam e culturas que se transformam rumo a um futuro diferente.
Tracklisting:
- Rockcurry
- Hallo Shiva
- Economic Train
- Spatialee
- Fire Dali
- Yayaya
- To The Rescue
- State Of Emergency
