Médica veterinária Helenita Ciscon aponta riscos clínicos, fraudes, roubos de animais e falhas em bancos de sangue veterinário diante da ausência de controle efetivo no setor pet brasileiro
A recente sanção da lei pelo governador Tarcísio de Freitas, em São Paulo, que torna obrigatória a castração e a microchipagem de cães e gatos destinados à venda ou adoção, trouxe novamente à tona um debate que especialistas consideram urgente: a falta de rastreabilidade animal no Brasil.
Para a médica veterinária Helenita Ciscon, o problema ultrapassa a simples identificação dos animais e revela uma fragilidade estrutural com impactos diretos na segurança clínica, na fiscalização sanitária e até no combate a crimes envolvendo pets.
“O microchip deveria funcionar como o RG biométrico definitivo do animal durante toda a vida. No entanto, o Brasil enfrenta uma falha estrutural gravíssima: muitos animais não possuem chip, diversas clínicas não contam com leitores e inúmeros dispositivos sequer estão cadastrados em bancos de dados”, afirma a especialista.
O microchip é um pequeno transponder eletrônico implantado sob a pele do animal, contendo um código numérico único e permanente. Em diversos países, a identificação eletrônica já é considerada um protocolo básico de segurança sanitária e bem-estar animal. Em viagens internacionais, por exemplo, muitos destinos exigem a microchipagem como requisito obrigatório para a entrada de animais.
No Brasil, porém, a realidade ainda é marcada pela falta de padronização e pela escassez de fiscalização.
## Riscos clínicos e falhas na segurança hospitalar
Segundo Helenita Ciscon, a leitura do microchip deveria fazer parte dos protocolos obrigatórios de triagem em clínicas e hospitais veterinários. A ausência desse procedimento aumenta consideravelmente o risco de erros médicos.
“Se dois animais com características semelhantes estiverem internados, como dois gatos pretos, machos e castrados, a equipe fica vulnerável ao erro humano. Sem a conferência eletrônica antes de exames, medicações ou cirurgias, existe o risco real de troca de pacientes, administração incorreta de medicamentos e realização de procedimentos equivocados”, explica.
A especialista destaca que coleiras e plaquetas de identificação podem ser removidas, perdidas ou trocadas, enquanto o microchip permanece permanentemente implantado e protegido sob a pele do animal.
## Falta de rastreabilidade em bancos de sangue preocupa especialistas
Outro ponto considerado crítico envolve a hemoterapia veterinária, especialmente em felinos.
De acordo com Helenita, a obtenção de sangue seguro exige protocolos rigorosos, incluindo exames laboratoriais avançados e períodos de monitoramento para doenças infectocontagiosas, como a Leucemia Viral Felina (FeLV).
Entretanto, ela alerta que ainda existem locais fornecendo sangue animal sem mecanismos adequados de rastreabilidade.
“A ausência de microchipagem nos animais doadores cria um verdadeiro apagão de dados. Sem identificação eletrônica, torna-se extremamente difícil auditar a origem do sangue em situações de contaminação ou transmissão de doenças”, afirma.
Segundo a veterinária, a falta de rastreabilidade compromete a segurança dos procedimentos e pode dificultar a responsabilização técnica dos estabelecimentos envolvidos.
## O problema do “chip vazio”
Além da ausência de microchipagem, outro problema recorrente é a existência dos chamados “chips vazios”: dispositivos implantados que não possuem qualquer cadastro vinculado ao código eletrônico.
“É comum encontrarmos animais cujo chip é detectado pelo leitor, mas cujo número não está associado a nenhuma informação nos sistemas. Nesses casos, o microchip perde completamente sua função”, explica.
A situação, segundo ela, pode ocorrer por falhas operacionais, falta de atualização cadastral ou até pela aplicação clandestina do dispositivo por pessoas sem habilitação profissional, prática que pode configurar exercício ilegal da medicina veterinária.
## Roubo de animais e fraudes
O crescimento dos casos de furtos e roubos de pets também está relacionado à ausência de identificação eletrônica amplamente difundida, avalia a especialista.
Helenita defende que a leitura do microchip seja realizada rotineiramente em todos os pacientes novos atendidos por clínicas veterinárias.
“Quando os dados do responsável cadastrados no sistema não coincidem com a pessoa que apresenta o animal para atendimento, isso deve gerar um alerta. Sem essa verificação, clínicas podem acabar atendendo animais furtados sem qualquer conhecimento da irregularidade”, ressalta.
Impacto sobre animais perdidos e abrigos
A falta de uma cultura consolidada de microchipagem também afeta diretamente o resgate de animais desaparecidos.
Para a veterinária, milhares de pets poderiam ser devolvidos rapidamente aos seus tutores caso a leitura do microchip fosse uma prática rotineira em clínicas, hospitais veterinários e centros de acolhimento.
“Bastaria aproximar o leitor para acessar informações do responsável, como telefone e endereço. Sem isso, muitos animais permanecem por longos períodos em abrigos públicos e privados, dificultando a reunificação com suas famílias”, observa.
Segurança laboratorial e prevenção de erros
Outro aspecto frequentemente negligenciado, segundo Helenita, envolve os exames laboratoriais veterinários.
Ela explica que erros de identificação de amostras, trocas de etiquetas e laudos atribuídos ao paciente errado ainda ocorrem e podem comprometer diagnósticos e tratamentos.
“A vinculação obrigatória do código do microchip à coleta biológica cria uma camada adicional de segurança técnica e jurídica. Em caso de dúvidas, é possível realizar contraprovas e comprovar cientificamente a origem daquela amostra”, destaca.
A necessidade de um sistema integrado
Para Helenita Ciscon, o Brasil precisa superar a visão da microchipagem como mera exigência burocrática ou comercial.
A especialista defende a implementação de um sistema integrado de rastreabilidade, no qual o código eletrônico esteja conectado ao prontuário clínico completo do animal, reunindo histórico médico, idade, peso, características físicas, comorbidades e dados do responsável.
“Somente com rastreabilidade séria será possível oferecer mais segurança clínica, respaldo jurídico aos profissionais e proteção efetiva aos animais e às suas famílias”, conclui.
(Foto: Inteligência aritficial)
