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Início » A economia global depende de minerais críticos — e a demanda pode superar a oferta nas próximas décadas
Economia

A economia global depende de minerais críticos — e a demanda pode superar a oferta nas próximas décadas

Revista Mindabril 2, 20264 Mins Read
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Expansão de carros elétricos, energia renovável, automação industrial e inteligência artificial pressiona a demanda por minerais estratégicos como o neodímio, enquanto a produção global permanece concentrada e limitada


A transformação tecnológica e energética da economia global está criando uma pressão sem precedentes sobre o mercado de minerais críticos. Elementos como neodímio, disprósio e praseodímio — utilizados principalmente na fabricação de ímãs permanentes de alta performance — tornaram-se essenciais para setores que vão da mobilidade elétrica à automação industrial. O desafio é que a demanda por esses materiais cresce em ritmo muito superior à capacidade de expansão da oferta.

Segundo projeções da Agência Internacional de Energia (IEA), a demanda global por minerais críticos ligados à transição energética pode crescer até quatro vezes até 2040. No caso específico dos elementos utilizados em ímãs permanentes, o crescimento pode ser ainda maior, impulsionado pela eletrificação da economia e pela expansão da infraestrutura energética.

Os ímãs de neodímio são hoje considerados insumos estratégicos para motores elétricos de veículos híbridos e elétricos, turbinas eólicas, sistemas de automação industrial, equipamentos médicos e uma ampla variedade de tecnologias digitais. Estimativas da consultoria Adamas Intelligence indicam que mais de 40% do consumo global de terras raras está ligado à fabricação de ímãs permanentes, segmento que deve registrar crescimento contínuo nas próximas décadas.

Apesar da expansão da demanda, a produção global permanece altamente concentrada. Dados do U.S. Geological Survey mostram que a China responde atualmente por cerca de 60% da mineração mundial de terras raras e mais de 85% do processamento e fabricação de ímãs de alta performance. Essa concentração gera preocupações recorrentes em governos e empresas, especialmente após os gargalos logísticos observados durante a pandemia e em momentos de tensão geopolítica.

Para Rodolfo Midea, especialista em cadeias internacionais de fornecimento e diretor da Fácil Negócio Importação, o mercado ainda subestima a importância estratégica desses materiais. “Quando se fala em transição energética ou digitalização da indústria, a atenção costuma estar nas tecnologias finais. Pouca gente olha para os materiais que tornam essas tecnologias possíveis”, afirma.

O desafio da oferta está diretamente ligado à complexidade da cadeia produtiva. A mineração é apenas a primeira etapa. Após a extração, os minerais passam por processos sofisticados de separação química, refino e transformação industrial até se tornarem componentes de alta performance. Essas etapas exigem conhecimento técnico, infraestrutura industrial e investimentos significativos, o que explica por que poucos países dominam toda a cadeia.

A expansão da produção também enfrenta obstáculos regulatórios e ambientais. Projetos de mineração de terras raras costumam levar entre 10 e 15 anos para entrar em operação, considerando licenciamento ambiental, viabilidade econômica e construção de infraestrutura. Esse prazo contrasta com o ritmo acelerado da demanda global por tecnologias baseadas nesses materiais.

“O mundo está acelerando a eletrificação, a digitalização e a automação ao mesmo tempo. Todas essas transformações dependem de minerais críticos. A questão é que abrir novas minas e construir capacidade industrial leva tempo”, explica Midea.

No Brasil, o debate sobre minerais estratégicos ganha importância à medida que o país possui reservas relevantes desses elementos, mas ainda participa de forma limitada nas etapas de maior valor agregado da cadeia. Para especialistas, o desafio brasileiro não está apenas na mineração, mas no desenvolvimento de uma estrutura industrial capaz de transformar esses recursos em tecnologia e componentes.

Enquanto governos e empresas discutem estratégias para garantir acesso seguro a minerais críticos, uma questão começa a ganhar espaço entre analistas de mercado: se a demanda continuar crescendo no ritmo atual, a oferta global pode enfrentar dificuldades para acompanhar.

“Não se trata apenas de mineração. Trata-se de indústria, tecnologia e estratégia econômica”, diz Midea. “Quem dominar essas cadeias terá uma vantagem importante na economia das próximas décadas.”

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