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Negócios

A sobrecarga feminina custa bilhões às empresas, e o problema começa dentro da liderança

Anna Laitinenmarço 20, 20264 Mins Read
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Jornada dupla, maior incidência de afastamentos por transtornos mentais e ambientes inseguros ampliam riscos psicossociais nas organizações; especialistas alertam para impacto econômico e jurídico.

O debate sobre igualdade de gênero no mercado de trabalho costuma ganhar força em março, mas os números mostram que o tema ultrapassa o campo simbólico. A sobrecarga estrutural que recai sobre mulheres tem impacto direto na saúde mental, na produtividade e nos custos corporativos.

Dados do IBGE indicam que mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais a afazeres domésticos e cuidados não remunerados, quase o dobro das 11,7 horas dedicadas pelos homens. Entre mulheres com filhos pequenos, essa diferença se amplia.

No mercado formal, elas também concentram maior incidência de afastamentos por transtornos relacionados à ansiedade e depressão, especialmente nas faixas etárias economicamente ativas. Segundo dados recentes do Ministério da Previdência Social, os benefícios concedidos por incapacidade temporária ligados a transtornos mentais ultrapassaram meio milhão em 2025, mantendo a trajetória de alta observada nos anos anteriores.

O impacto não é apenas humano. A Organização Mundial da Saúde estima que ansiedade e depressão geram perdas globais de produtividade equivalentes a US$ 1 trilhão por ano. No Brasil, o avanço dos afastamentos pressiona empresas com aumento de rotatividade, absenteísmo e queda de desempenho.

Para Flávio Lettieri, mentor de líderes e especialista em saúde emocional corporativa, parte do problema está na forma como as organizações estruturam gestão e metas.

“O risco psicossocial nasce da organização do trabalho. Quando a liderança ignora variáveis estruturais, como jornada dupla, pressão por validação constante ou ambientes pouco seguros para denúncia, ela amplia vulnerabilidades”, afirma.

Segundo ele, muitas empresas ainda tratam o tema como pauta de diversidade ou campanha interna, sem integrar o debate à estratégia de risco corporativo.

“Se o modelo de liderança não considera essas variáveis, o custo aparece depois em afastamentos, conflitos e judicialização.”

Assédio e insegurança psicológica elevam passivo

Dados do Conselho Nacional de Justiça indicam crescimento consistente de ações trabalhistas envolvendo assédio moral e sexual nos últimos anos. O recorte de gênero é recorrente nesses processos, especialmente quando há omissão institucional ou falha na apuração de denúncias.

Para a advogada Bruna Ribeiro, o ambiente organizacional passou a ser analisado com maior rigor sob a ótica preventiva.

“Não basta reagir ao dano. A empresa precisa demonstrar que mapeia riscos, treina lideranças e cria barreiras institucionais de proteção. Quando não há evidência de prevenção, o risco jurídico aumenta”, afirma.

Segundo ela, a discussão ganha ainda mais relevância com a ampliação das exigências regulatórias que passam a incluir fatores psicossociais dentro do gerenciamento formal de riscos ocupacionais a partir de 2026.

Liderança como fator estratégico

Lettieri afirma que o papel da liderança é determinante nesse cenário.

“A liderança pode funcionar como filtro de proteção ou como amplificadora de risco. Ambientes onde há metas desproporcionais, comunicação agressiva ou tolerância a microagressões tendem a gerar maior desgaste emocional, e mulheres, estatisticamente, absorvem parte relevante dessa pressão.”

Ele desenvolveu uma ferramenta de inteligência artificial voltada ao diagnóstico inicial de riscos psicossociais, que permite às empresas identificar vulnerabilidades estruturais antes que elas se convertam em crise.

“A pergunta que as empresas deveriam se fazer neste mês não é apenas sobre representatividade, mas sobre gestão: nossa liderança protege ou expõe?”, afirma.

De pauta simbólica a risco estratégico

O 8 de março, nesse contexto, deixa de ser apenas data comemorativa e passa a revelar um desafio estrutural.
A sobrecarga feminina no ambiente corporativo não é apenas uma questão social — é um vetor de risco organizacional, com impacto financeiro, jurídico e reputacional.

E, para especialistas, ignorar esse dado pode custar caro.

“Empresas que tratam o Dia da Mulher apenas como ação simbólica perdem a oportunidade de revisar suas estruturas internas. Liderança responsável não é discurso, é método. Quando a organização aprende a mapear vulnerabilidades e agir preventivamente, ela protege pessoas e preserva resultados. Ignorar isso hoje é assumir um risco que amanhã pode se tornar custo concreto”, afirma Flávio Lettieri.

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