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Início » Camila Pimenta: “Ter luxo é diferente de construir luxo”
Lifestyle

Camila Pimenta: “Ter luxo é diferente de construir luxo”

Revista Mindagosto 20, 20266 Mins Read
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Entre hotéis cinco estrelas, paisagens extraordinárias e interiores cada vez mais autorais, a arquiteta analisa os movimentos que estão redesenhando a experiência do alto padrão e aponta o que o Brasil pode aprender com eles

O verão europeu continua sendo uma das principais vitrines mundiais do luxo. Costa Amalfitana, Côte d’Azur, Ibiza, Mykonos e Algarve concentram hotéis, resorts e residências entre os mais desejados do mundo e funcionam como um observatório privilegiado das transformações da arquitetura de alto padrão.

Para a arquiteta Camila Pimenta, acompanhar esse movimento exige olhar além da estética. Pedras naturais de desenho expressivo, mobiliário assinado, obras de arte e grandes nomes do design seguem presentes, mas o que diferencia os projetos mais relevantes é a forma como arquitetura, interiores, iluminação, paisagismo e experiência passam a ser concebidos como uma composição única.

“O luxo europeu está cada vez menos preso a uma estética única. Você encontra interiores extremamente clássicos e ornamentados e projetos contemporâneos, quase escultóricos, ocupando o mesmo universo de altíssimo padrão. O ponto em comum não é o estilo; é o nível de execução”, afirma.

O artesanal ganha espaço onde a tecnologia é maior

Entre os movimentos observados pela arquiteta está uma valorização intensa da materialidade. Pedras naturais, madeiras, metais, tecidos sofisticados e superfícies táteis dividem espaço com peças desenvolvidas especialmente para cada projeto. Ao mesmo tempo, técnicas artesanais reaparecem em interiores extremamente contemporâneos.

“Quanto mais tecnologia temos disponível, mais valioso parece aquilo que revela a mão de quem fez”, observa Camila.

Não se trata de abandonar a inovação, mas de empregá-la para alcançar uma execução cada vez mais precisa, preservando o que torna cada peça singular.

Essa busca pelo único também aparece no mobiliário, na arte e na iluminação. Em vez de ambientes formados por uma sucessão de elementos disputando protagonismo, os projetos mais sofisticados trabalham melhor a hierarquia.

Uma pedra excepcional pode dominar uma parede. Uma luminária pode assumir escala arquitetônica. Uma peça de mobiliário pode funcionar como escultura. O restante do ambiente existe também para valorizar essas escolhas.

Ter luxo é diferente de construir luxo

A distinção se torna especialmente clara na hotelaria cinco estrelas. Um empreendimento pode reunir mármore, obras de arte, mobiliário assinado e materiais de altíssimo valor e, ainda assim, não proporcionar uma verdadeira experiência de luxo.

Segundo Camila, os hotéis europeus mais extraordinários alcançam algo muito mais difícil de reproduzir: coerência absoluta. Arquitetura, interiores, paisagismo, iluminação, aroma, enxoval, louça, música e serviço parecem pertencer à mesma narrativa.

Grande parte dessa percepção nasce de detalhes que o hóspede dificilmente identifica de maneira consciente: a altura de uma poltrona, a acústica de um restaurante, a intensidade da iluminação sobre a mesa, o percurso entre o quarto e a piscina e a paisagem revelada ao abrir uma porta.

Isoladamente, são pequenas decisões. Juntas, determinam a experiência.

“Existe uma diferença enorme entre ter luxo e construir luxo. O primeiro pode ser comprado. O segundo precisa ser projetado.”

Quando a arquitetura sabe onde desaparecer

Nos grandes destinos do verão europeu, a paisagem é parte essencial do projeto.

Na Costa Amalfitana, a topografia praticamente conduz a arquitetura. Os hotéis se desenvolvem em diferentes níveis e criam percursos nos quais o mar surge, desaparece e volta a ser revelado pela construção.

Na Côte d’Azur, a elegância histórica convive com intervenções contemporâneas. Em Ibiza e Mykonos, a luz participa ativamente dos espaços, transformando paredes claras, volumes puros e materiais naturais ao longo do dia. No Algarve, falésias, pedras e tonalidades do entorno orientam a própria paleta arquitetônica.

O ponto comum entre esses destinos não está em uma fórmula estética, mas na capacidade de reconhecer a identidade do lugar.

“Quando a paisagem é extraordinária, a arquitetura boa não compete com ela. Sabe exatamente onde interferir e onde desaparecer”, resume Camila.

Para a arquiteta, os melhores projetos são aqueles que não precisam importar uma linguagem para comunicar sofisticação. Eles partem da identidade existente e trabalham para potencializá-la.

Quiet luxury não significa ausência de exuberância

Poucos conceitos foram tão repetidos recentemente quanto o quiet luxury. Na arquitetura, Camila alerta para uma interpretação simplificada do termo.

Reduzir o movimento a ambientes neutros, bege ou minimalistas seria ignorar o que efetivamente acontece no alto padrão.

O luxo europeu continua exuberante. Mármores raros, metais, obras de arte, mobiliário sob medida, peças importantes de design e soluções construtivas complexas permanecem nos interiores mais sofisticados. A mudança está na edição.

“Para mim, o quiet luxury mais interessante não significa fazer menos. Significa eliminar aquilo que não acrescenta.”

Uma pedra pode ser dramática, uma luminária pode assumir proporções monumentais e um móvel pode ser tratado como obra de arte. A diferença está em permitir que cada elemento tenha espaço para ser percebido.

Quanto mais precisa a composição, maior a importância da execução. Sem excesso de elementos para desviar o olhar, proporção, encontro de materiais, paginação, iluminação e acabamento ficam expostos.

“No alto padrão, um detalhe de poucos milímetros pode separar aquilo que parece apenas caro daquilo que realmente parece excepcional.”

A exclusividade deixa de estar apenas na marca

Outra transformação percebida pela arquiteta está na relação do consumidor de luxo com a exclusividade. Reconhecer uma peça cara ou identificar uma grande marca já não é suficiente para uma parcela desse público.

Cresce a procura pelo que não está simplesmente disponível em catálogo: mobiliário desenhado para um ambiente específico, peças produzidas em pequenas séries, obras comissionadas e soluções concebidas para uma determinada residência.

A exclusividade passa a estar menos associada ao reconhecimento imediato e mais à impossibilidade de repetição. É uma mudança que devolve força à autoria.

E o Brasil?

Para Camila, a principal lição europeia não está em reproduzir sua estética, mas em observar como os melhores projetos internacionais valorizam a própria origem.

O Brasil possui pedras naturais extraordinárias, madeiras, fibras, artesanato, uma produção relevante de mobiliário autoral, clima favorável à integração entre interior e exterior e uma das maiores riquezas paisagísticas do mundo.

Importar literalmente uma estética mediterrânea seria desperdiçar parte desse potencial.

“Eu espero que o Brasil absorva menos a estética europeia e mais a maneira como os melhores projetos europeus valorizam a própria origem.”

A tendência, segundo a arquiteta, é ver projetos brasileiros de alto padrão cada vez mais autorais, com materiais nacionais usados de forma expressiva, paisagismo efetivamente integrado à arquitetura, áreas externas com maior protagonismo e peças desenvolvidas especialmente para cada projeto.

A casa deixa de ser uma composição de referências reconhecíveis para se tornar algo que pertence àquela arquitetura, àquele lugar e àquelas pessoas.

“Sofisticação não está em reproduzir uma referência internacional, mas em ter repertório suficiente para criar algo que não poderia existir em nenhum outro lugar.”

Quando isso acontece, conclui Camila, a arquitetura deixa de simplesmente acompanhar tendências e começa a construir identidade.

(Crédito: Arquivo Pessoal)

Camila Pimenta
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