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Início » A dor que ninguém vê: sofrimento emocional entre jovens cresce e preocupa especialistas
Saúde

A dor que ninguém vê: sofrimento emocional entre jovens cresce e preocupa especialistas

Anna Laitinenmarço 23, 20264 Mins Read
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Ela tinha apenas 10 anos quando disse, pela primeira vez, que já havia pensado em morrer.

A revelação aconteceu durante uma consulta médica de rotina. Até então, nada indicava que aquela criança carregava um sofrimento tão profundo. Durante o atendimento, ela contou que não apenas havia tido esse tipo de pensamento, como também já havia imaginado uma forma de fazê-lo.

Diante da gravidade do relato, a pediatra Dra. Fernanda Lago voltou-se à mãe, que acompanhava a consulta, e fez uma pergunta direta: ela sabia daquilo?

A resposta veio imediata, acompanhada de espanto. A mãe afirmou que não fazia ideia do que a filha estava enfrentando. Por alguns segundos, o consultório permaneceu em silêncio. Era a primeira vez que aquela família tomava conhecimento da dimensão do sofrimento emocional vivido pela criança.

Casos como esse, segundo a médica, estão longe de ser isolados. Ela explica que muitas crianças enfrentam dores emocionais profundas sem conseguir expressá-las de forma clara. Em muitos casos, os sinais passam despercebidos até mesmo dentro de casa.

De acordo com a pediatra, ainda é comum a crença de que questões relacionadas à saúde mental surgem apenas na adolescência. No entanto, o sofrimento psíquico pode começar ainda na infância e evoluir de forma silenciosa quando não identificado precocemente. A falta de percepção por parte dos adultos, muitas vezes, contribui para o agravamento desses quadros.

O cenário tem chamado a atenção de especialistas em saúde mental em todo o mundo. O suicídio já figura entre as principais causas de morte entre adolescentes, e estimativas internacionais apontam que mais de 700 mil pessoas morrem por essa causa todos os anos, sendo uma parcela significativa composta por jovens.

No Brasil, análises epidemiológicas também indicam crescimento preocupante ao longo das últimas décadas, especialmente entre adolescentes. Outro fator que amplia a gravidade do problema é o fato de que o número de tentativas costuma ser muito maior do que o de casos registrados oficialmente. Muitas dessas situações acontecem dentro do ambiente familiar, sem que pais ou responsáveis percebam os sinais de sofrimento.

Especialistas apontam que, embora a juventude sempre tenha sido marcada por desafios emocionais, o contexto atual apresenta novas pressões. A exposição constante nas redes sociais, a comparação com padrões muitas vezes inalcançáveis, o medo de rejeição, o bullying e as cobranças acadêmicas e familiares contribuem para um ambiente emocionalmente mais complexo.

Para alguns jovens, essas pressões são passageiras. Para outros, podem se transformar em um peso significativo, com impactos diretos na saúde mental.

Apesar da gravidade do tema, ainda existe resistência em abordá-lo de forma aberta. Muitos responsáveis evitam falar sobre o assunto por acreditarem que questionar diretamente poderia influenciar ou incentivar esse tipo de pensamento.

No entanto, estudos na área da saúde mental indicam que essa percepção não corresponde à realidade. Segundo a pediatra, quando há sinais de sofrimento emocional, o diálogo direto é fundamental. Perguntar de forma clara não induz o comportamento, mas pode abrir espaço para que a criança ou o adolescente expresse sentimentos que estavam sendo mantidos em silêncio.

Ela ressalta que, ao avaliar riscos e benefícios, é mais seguro abordar o tema do que ignorar sinais que possam indicar sofrimento psíquico.

Mudanças de comportamento costumam ser alguns dos principais indicativos de alerta. Isolamento social repentino, tristeza persistente, irritabilidade intensa, perda de interesse por atividades antes prazerosas, alterações no sono ou no apetite, queda no rendimento escolar, falas relacionadas à morte ou à desesperança e comportamentos autolesivos são sinais que exigem atenção.

Diante desses indícios, a busca por ajuda profissional pode ser determinante para a identificação e o tratamento adequado.

Para a especialista, um dos maiores desafios ainda é romper o silêncio em torno do tema. O desconforto em falar sobre sofrimento emocional na infância faz com que muitos casos permaneçam invisíveis até que atinjam níveis mais graves.

Ela reforça que crianças também sofrem e, muitas vezes, não possuem recursos emocionais ou linguagem para expressar o que sentem. Nesse contexto, o papel dos adultos é fundamental na observação, no acolhimento e na escuta ativa.

A cena vivida no consultório evidencia essa realidade. Uma criança carregava pensamentos que ninguém ao seu redor imaginava. A descoberta só aconteceu quando a pergunta foi feita.

Em muitos casos, não é a ausência de respostas que aprofunda o sofrimento, mas a falta de espaço para que ele seja reconhecido.

Às vezes, tudo o que uma criança precisa é ser ouvida.

(Foto: divulgação)

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